Por mais que eu tenha meus 26 anos e já tenha vivido coisa pra caramba. Por mais que tenha morado sozinha em outro país e ter tido que me virar pra poder comer, morar, trabalhar. Por mais que eu já tenha saído de relacionamentos seriíssimos. Eu tenho umas bobeiras que ninguém tem, ou que todo mundo tem, mas que só eu assumo na maior naturalidade, como se a bobeira fosse um prêmio ou uma coisa bem bacana de se ter. Eu tenho bobeiras sinistras, como por exemplo, pânico de barriga de grávida. Pois é, eu tenho medo e gastura e agonia. Tenho bobeiras quando alguém faz quebradinho. É assim, se você mexe o nariz de um lado pro outro, ele faz um barulho tipo quebrando. Tenho muito pavor disso. Bobeira maior é querer viver um conto de fadas, eu deixo tudo meio surreal pra parecer tão incrível e tão mágico. E tenho bobeira de não querer chorar por nada, mas se vejo um filme triste quase morro de tanto chorar, e sinto espasmos e acho que vou morrer com o personagem. Agora, bobeira de verdade é achar que todo mundo é bobo. Mas no fundo é uma honra. Porque só quem tem bobeira entende o quão louco o mundo é. Sentir a bobeira por muito tempo não dá, antes eu viva ela nas 24 horas do meu dia. Mas não dava. Tinha muita coisa pra fazer, tinha o menino bonito, a prova, a aula, a família, as amigas, os filmes. Mas no intervalo de qualquer coisa eu voltava pra ela, sempre ela, a bobeira que vivia comigo, que era a minha melhor amiga. E quem me vê até sabe que eu tenho umas bobeiras engraçadas, e logo ta todo mundo rindo, e eu tô rindo. E por dentro, um bichinho vai crescendo e afiando suas garras, sempre na defensiva. Vai que alguém resolve me sacanear? Você precisa viver mais a vida. Eu posso explicar melhor agora que sou adulta. É tipo assim óh: de repente, eu preciso ir embora, entende? Rápido, correndo. Por que o quê? Como assim? Porque eu morro, sei lá. Se ta bom demais me da tanta bobeira e eu quero parar, porque sei lá, vai que eu morro de sofrer depois? E se ta muito legal, eu começo a desconfiar. Mas peraí, por que ta tão bom assim? E, cara, tem alguma coisa errada. E você beija uma pessoa, dai você lambe uma pessoa, e dali uns meses, o quê? Não sei, sumiu. Sumi. E segue-se. Mas aí começou a piorar muito. Tipo todo mundo se divertindo e vivendo muito e eu pensando na minha bobeira. Eu já quis largar essa merda toda, e ser mais simples, porque só os complicados vivem de bobeira. Mas não é fácil. A gente vai indo. Algumas vezes de muletas, algumas vezes mutilados, algumas vezes sem nem poder tocar direito o chão. Mas vamos. E toda vez que penso nisso, eu choro um pouco. Porque eu sempre achei que a bobeira mandasse em mim. Mas hoje, depois de ter deixado a bobeira agir, eu fui lá e falei: "olha, eu quero ser feliz, na boa, eu preciso de ajuda e eu não quero mais ser boba, saca? De verdade". E a Tati me disse que a mente é como a perna. O joelho estraga se você fizer os exercícios errados. E fritar é foder o joelho do cérebro. E se o cérebro é só um joelho, então o quê? Nada. É isso. Um dia, você descobre que se começar a fazer as coisas direitinho a bobeira aos poucos vai ficando tão pequena, e meio que vai sumindo, e você esta salvo. Viver é esse mistério mesmo. Não adianta querer correr mais rápido pra chegar até o fim. O fim vem por ele mesmo. Então é só respirar e deixar que o mistério chegue na boa. É só isso que dá pra fazer. Ela ganha e ponto final. Ela ganha, mas a gente se diverte. Não dá pra entender nada. Mas é isso. A gente beija, se lambe e some. Com calma, você repara. E não é ruim. Com calma, você vai perdendo o medo de viver. E a vida fica mais bonita. É só isso. A vida. Com calma. Só a vida. Uma linda e magnífica bobeira da vontade que grita pra ser feliz.
16 abril, 2011
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