30 março, 2011

Doce perfeito

Eu nasci e o médico disse pra minha mãe que ainda não sabia o que eu era: É uma menina, berrou ele contra o meu berro que era forte e sufocado. Minha mãe dá aquela olhada pra ver se esta tudo ok e comenta: “feinha pra cacete hein”? Eu não fui esses bebês lindos e gordos que enchem os olhos das pessoas. Pra minha avó eu até fui, mas conversando com o resto da família e olhando as fotos eu sei que a minha avó dizia isso por pena talvez, pensa, a única pessoa que me achou bonita logo que eu nasci. Mas minha mãe, mesmo não me achando um bebê lindo de morrer fez questão de sonhar a partir daquele dia com o meu príncipe encantado. Um homem alto, bonito, bem sucedido que se casaria comigo e me faria à mulher mais feliz do mundo. E eu, aos cinco anos de idade, nem sabia o que era isso de amor. Achava que a gente só amava a família, os brinquedos e o cachorrinho de estimação. Foi nessa época que abriu na rua de cima da minha casa uma doceria. A rua era bastante arborizada, com alguns gourmets e casinhas estilo colonial. Era outono e as crianças brincavam na rua enquanto seus pais tomavam café nas varandinhas que tinham por lá. Minha mãe que trabalhava muito nunca tinha tempo, mas me prometeu com dedinho (coisa sagrada pra mim desde criança) que no sábado me levaria. Tal como prometido, sábado chegou e eu toda arrumadinha ficava encantada com a vitrine repleta de doces, enquanto ela conversava com uma amiga na porta da loja. Tinha sonhos com recheio de doce de leite, muffins, pudins, flans, tartaletes, bombons decorados, barquinhas de chocolate. Tinha tudo. E eu, a mais de vinte minutos imaginando o gosto de cada um pra ter certeza qual queria provar. Quando enfim me decidi, pedi cheia de autoridade apesar da pouca idade: Quero o forro da tartalete, cobre com nutella, põe mousse de limão, chantilly e morangos. A mulher me diz sorrindo que esse doce não tem. Eu indignada pergunto se ela não pode fazer pra mim, por que é esse o doce que eu quero. Sem um pingo de compaixão ela diz que eu devo escolher um daqueles da vitrine. Com os olhos cheios de lágrimas vou até ao encontro da minha mãe e digo que não quero mais doce nenhum, porque o ÚNICO que eu queria não tem. Preferi ir embora sem provar doce algum, porque na minha cabeça, provar outro doce seria como trair o meu doce perfeito. A garotinha cresceu e aprendeu a trocar o desejo pelo doce perfeito no cara perfeito que me resgata do alto da minha torre, e faz por mim o que Rodrigo Santoro faz nas novelas. Querendo que ele enfrente dragões, bruxas, lobos selvagens. Que sofra,e que vare a noite atrás de mim e que faça tudo o que o Noah fez pela Allie. Que ele impeça com que eu vá embora e grite que me ama pra todo mundo ouvir. Que ele chorando seja como o Hank quando chorou pela Karen, meio sexy, meio bravo. No entanto, os amores da vida real não são tão mágicos e tão arrebatadores como os que a gente vê nos filmes. Eles são pessoas normais, que dão duro pra caramba, estudam, e nos levam pra jantar cheios de entusiasmo. São príncipes à sua maneira, e eu não passo de uma menina querendo roubar o papel da cinderela, mas lá no fundo, a carência existencial que existe em mim herdada no berço jamais será preenchida. Vira e mexe vou olhar pela janela e suspirar por algo que nem sei direito o que é. Assim como o doce perfeito não existiu pra mim aos cinco anos idade, meu príncipe encantado, o cara perfeito não existe aos 26. Só que dessa vez tem uma diferença, aprendi a provar doces, vai que eu acho um parecido com o meu doce perfeito?

Um comentário:

Aninha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
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