Era outono. O vento era um pouco frio e fazia um courinho seco no canto da minha boca. Foi assim que eu vi o menino mais bonito do mundo. Ele era o menino mais bonito do mundo, eu não tinha nenhuma dúvida. Quem poderia ser mais bonito do que ele? Ninguém. Eu nunca tinha visto um menino tão bonito assim em toda a minha vida. Ele tinha os cabelos claros que me lembravam o sol, o sorriso de orelha a orelha com todos aqueles dentes brancos e perfeitos, os olhos escuros que me faziam desejar mergulhar na imensidão da escuridão daquele olhar pra ver tudo o que ele já tinha visto por aí. E ele, do alto de sua absurda e dolorosa beleza, se exibia pra mim. Ele nunca me olhava. Ele nunca me via. Era como se ele me mostrasse que eu era só uma menininha engraçadinha com um courinho no canto da boca. Todo mundo olhava pra ele. Todo mundo gostava dele. Quem não gostaria do menino mais bonito do mundo? Homens, mulheres, velhinhos, crianças, cachorros, pombas, formigas, passarinhos. Todos olhavam pra ele e confirmavam: sim ele é mesmo o menino mais bonito do mundo. Eu não sabia nada dele. Não sabia seu nome, quantos anos ele tinha, qual era a sua cor favorita, aonde ele estudava, o que ele fazia, pra que time torcia. Nada, eu não sabia nada. Só sabia que sábado eu poderia sentar e esperar que ele aparecesse. E quando ele aparecia, eu desejava que o tempo parasse de ser medido. Eu desejava poder congelar o tempo e o mundo pra que eu pudesse tocar nele pra ver se ele era mesmo real. E eu passava perto dele, eu passava na frente dele, mas não conseguia olhar pra ele. E todo sábado por 30 minutos o menino mais bonito do mundo aparecia pra mim. E pronto, acabou, agora só sábado que vem. Não me importava, eu não sofria, eu esperava, e ele aparecia, e a vida seguia, e eu sorria. Mas eu sentia vontade de falar com ele. Ei menino, qual é o teu nome? Tu já me viu passando por aqui? Posso te confessar uma coisa? Sabia que eu só vou ali na farmácia fazer de conta que vou comprar um remédio pra poder passar do teu lado? Mas eu nunca falei com ele. Eu me mudei. Fui embora sem saber o nome do menino mais bonito do mundo. Numa festa, um homem chegou perto de mim e falou: “eu te conheço de algum lugar sabia”? Não eu não sabia, e não tinha a menor idéia. “você era minha vizinha não lembra”? Era o menino mais bonito do mundo. Demorou 10 anos pra que eu falasse com ele e soubesse o seu nome. Talvez, antes eu não tenha percebido porque era a inocência da minha infância que me fazia ver tudo assim, tão bonito. Mas hoje ele era só um homem, tão comum, tão igual, divertido, me atrevo a dizer, mas extremamente normal.
23 maio, 2010
22 maio, 2010
Eu amo esse cara
“Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus – enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor.”
Indicações para um final de semana
Meus motivos ainda são motivos
O último capítulo da sexta temporada da Grey’s Anatomy chegou ontem pra mim. Eu comecei a me viciar nessa série em Portugal. Bastou um episódio pra que eu descobrisse que amava aquilo e que não conseguiria me desvencilhar da pergunta “e agora, o que será que vai acontecer”? As primeiras duas temporadas o Derek bonito de doer à alma eu vi em dois dias (eu fico sem dormir, por exemplo, não é muito normal, mas é assim que sei gostar). A Meredith era super complicada, se queria não sabia se queria, quando não queria fazia. Enfiava os pés pelas mãos, não sabia chorar. Tinha problemas em se entregar. Mas tinha sempre a Cristina ao seu lado, tão complicada quanto, mas que as duas viram nas suas complexidades excelentes companheiras, e deixavam que as suas maluquices andassem juntas, enquanto elas riam e por vezes choravam. Eu ficava tentando ver um pouco de mim em cada personagem. E me encontrava. Eu já chorei e fiquei dois dias malzona quando o George morreu, passei o dia sorrindo quando a Izzie casou com o Karev. Eu sei eu sei, é só uma serie, é ficção, não é real. Eu posso explicar a bizarrice ocorrida com a minha pessoa na noite de ontem. Enquanto tinha festas e convites pra sair, eu disse que ia pra casa, por que tinha que terminar umas coisas importantes. Era a serie, não podia passar mais nenhum dia sem saber o que ia acontecer com todos aqueles casais, com a Meredith que andava tão feliz e serena, com a Cristina que descobriu que o Hunt não sabia se gostava dela de verdade. E eu chorei. Ah eu chorei. Foi tudo tenso. Nos dois últimos capítulos um cara do inferno veio pra se vingar porque a sua mulher morreu e tinha assinado um termo de proibição pra ressuscitá-la, caso fosse necessário. E quando foi, a equipe médica não podia fazer nada. E ele quase morre com a sua amada. Resolveu então, se vingar de todos aqueles que tinham contribuído pra sua quase morte. Aí ele conseguiu dar um tiro no peito do Derek, mas a Cristina conseguiu fazer uma cirurgia. O cara do mal surge de novo no meio da cirurgia e ameaça matar todo mundo se eles não parassem de operar o Derek. Ai surge a Mer, e se oferece pra morrer no lugar dele. Ela tava grávida. Nem lembrou de nada. Ela disse: “Se você me matar ele vai sentir muito mais”. Um rio de lágrimas, com direito a tremedeiras, suores frios me fizeram pensar seriamente que talvez eu não fosse assim, tão normal. Definitivamente não era normal sofrer assim por um capítulo de série. (eu sei que esse texto ta meio ridículo, mas eu precisava escrever isso, desculpa). Mas sabe o que acontece? Eu pensei no que meu novo e engraçado amigo de email de fim de dia vem me falando à semana inteira. A gente vai escolhendo as pessoas, aceitando o rumo que a vida vai tomando por puro medo de ir em busca daquilo que se acredita. Porque gente, enquanto o homem do mal andava pelo hospital matando a galera, as pessoas iam se decidindo, entende? O Hunt que não sabia se amava a Cristina viu que amava. O Karev que dizia que queria se separar da Izzie, que chegou a assinar os papéis do divórcio, na hora da dor (porque levou um tiro) chamava o nome dela e pedia pra que ela não fosse embora nunca mais. Por que, meu Deus, por que a gente não para pra ir em busca daquilo que a gente realmente quer? E o pior, como a gente é capaz de aceitar que aquilo que a gente ame saia de perto da gente? Por que a gente se resigna a aceitar o que o destino põe na nossa frente? É um verdadeiro tormento lutar por aquilo que se quer de verdade. Lutar cansa né? Parece que as pessoas não sabem mais amar. São incapazes de continuar sentindo (e eu já falei isso uma vez). O Derek sobreviveu ao tiro, a Meredith teve um aborto espontâneo pelo grau de emoções que teve. E todo mundo se decidiu. Todo mundo viu o que era mesmo importante na sua vida, porque veio aquele velho clichê “viva como se fosse o ultimo dia da sua via, porque um dia será”. E eu acabo com esse texto horrível, sem saber se você teve saco pra me ouvir dizer que eles chegaram ao fim e se decidiram. Eu só não faço o mesmo por que os meus motivos ainda são motivos...
20 maio, 2010
Chás, bolachas e séries preferidas
Essa nossa intensidade nunca foi compreendida. Na verdade, a gente sempre foi esperta demais pra sacar as diretas e indiretas da vida. Desde o começo a gente soube da maldade do ser humano, mas sempre preferiu acreditar, mais e uma vez, e como troca justa viver uma historia pra que pudéssemos contar, e dar essa chance pro mundo nos amar do tamanho que a gente ama o mundo. Você minha querida e melhor amiga, me ensinou a viver. Você que alivia minha neurose, que surge tão linda e tão engraçada, me dizendo que crescer dói, mas que é preciso sentir essa dor. Você que sempre entende a minha pressa em sentir, em sorrir, em chorar. Você que ouve repetidas vezes tudo o que eu quero falar, pra ver se eu consigo entender o que o mundo faz comigo. Entender essa mistura de sentimentos que sinto todos os dias. Você que chora comigo. Que me admira e que adora as linhas que eu escrevo e sem pudor nenhum digo o que eu sinto, ainda que eu não saiba ao certo o que eu sinto. Você é demais. É com você que eu faço piada da própria dor, porque só quem tem muita cumplicidade é capaz de achar graça na própria desgraça. Minha melhor e mais adorada amiga, sempre do alto de suas boas intenções, equilíbrios e com um amor gigantesco capaz de entender a amiga que se perde e se descabela. Nasci com um troço aqui que ninguém entende, mas você entende, e me tira desse mundo frio e me leva pra um canto quentinho, com chás, bolachas e séries preferidas. É com você que eu chorei fim de amores. Era com você que eu desejava viajar pra lugares bem distantes e viver aventuras inimagináveis. Deu vontade de te abraçar de novo, ainda que rapidinho e dizer aquele “oraaa” tão cheio de amor que eu te digo. Vontade de voltar no tempo e ter ficado mais contigo. Vontade de voltar a ser criança e ouvir de novo todas as historias que você me contava. De deitar na rede e ouvir nessa voz tão doce e tão suave as músicas de Cabral. De tentar falar de trás pra frente, e apesar deu ser assim tão inteligente eu não conseguir acompanhar, ver você sem entender como eu não entendo, é engraçado. Eu sempre disse: eu tenho mais que uma mãe, eu tenho uma amiga. Minha melhor amiga. E eu troco todas, todas elas por você. Saudade dessas que doem e quase não cabem no peito - Minha mãeamiga.
16 maio, 2010
É apenas uma saudadezinha
Eu tô numa fase bem legal e bastante tranqüila na minha vida. Eu consegui desacelerar o peito, reduzir a marcha do meu coração e respirar suavemente. Mas tem dois dias que você não sai da minha cabeça, e eu vejo todas as fotos, ouço musicas que me fazem lembrar você. Olho pro canto e quando percebo tô olhando pra um canto e vendo você. Não sei se foi o fato de ter sonhado, se foi porque vi um filme lindo lindo, e essas coisas muita lindas me fazem lembrar você. Não sei se é porque agora ta sol, e você adorava sol e ficava tão lindo e tão feliz. Ou se porque nesse exato momento, eu lembro que era à hora de falar com você. Só sei que eu lembro de coisas tão boas que é impossível não sentir saudade. Acho normal. Acho perfeitamente normal lembrar com carinho que você sempre dava um jeito de falar comigo, estivesse do outro lado do mundo. Em hotéis, viajando, andando de balão. Não importava. Você dava um jeito de falar que tava lembrando de mim. E mesmo a gente não estando mais junto, estivesse você namorando ou prestes a saltar da pedra da gávea, dava um jeito de falar comigo. Era como se dissesse, sem dizer “eu sei que já faz tempo, mas ainda amo você”. E não adianta, eu lembro mesmo com saudade, de todas as manhãs engraçadas que tivemos, de ficar em cima do braço do sofá e esperar você chegar e me jogar nos seus braços. Também me faz bem lembrar que você tava sempre sorrindo. Tava sempre contando uma historia engraçada, fazendo uma palhaçada pra me ver sorrir. Coisas que só a gente entende. Eu lembro quando pintei o cabelo de preto e fomos pra aquele bar em Cascais da sinuca e você dizia que tava adorando porque eu parecia uma fugitiva e tava sexy e misteriosa. Eu tenho saudade de mil coisas e todas essas mil coisas sempre caem na mesma única coisa de que eu tenho tanta saudade: de você. Você me fazia sentir a pessoa mais especial do mundo. E me fazia sentir que o mundo era simples, era bonito, e às vezes eu quase acreditava que o mundo era perfeito, porque você tava nele. Eu lembro de cada segundo, de cada alegria! Eu lembro como se fosse agora, das suas palavras, do seu sorriso, do seu abraço esmagador. Lembro do seu jeito manhoso em pedir as coisas. Lembro de cada receita que você inventou e sempre ficou sensacional! Eu lembro do seu olhar, da sua alegria contagiante, das composições que eram feitas e no dia seguinte não eram lembradas. Lembro dos milhares de e-mail’s escritos só pra dizer que te amava. Lembro quando a gente tava junto, você nunca queria que eu fosse embora. Lembro das festas, dos tragos, da dancinha trance que só você sabe fazer. Amamos intensamente, vivemos intensamente, choramos intensamente, é isso que nos define. Intensidade, nas emoções, nas palavras, e no abraço... E que abraço bom! Realizamos nossos sonhos, fizemos o que podia e o que não podia pra sermos felizes... Lembro das nossas viagens, das nossas loucuras, e tudo isso fez com que fossemos o máximo. Aproveitamos como nunca, e fomos felizes como ninguém... E assim nós seguimos, por alguns bons anos, perfeitos, e tão parecidos ainda que tão atraídos mutuamente pelos nossos opostos. A gente era parecido principalmente porque topava as coisas mais malucas como, por exemplo, brincar de pegadinhas em shopping Center. De colocar o laser na casa do vizinho e ver ele desesperado pela janela da cozinha. Soltar balões na rua no dia das crianças. Nunca precisou de um motivo, de uma justificativa. A gente topava tudo e qualquer coisa. Eu tenho saudades de tudo. Da gente acordar e você me abraçando pra ficar ainda mais perto. De você pegar no meu sinal que eu odeio e que todo mundo acha feio, e você dizer que adorava ele, porque ele era meu e só eu tinha esse sinal no mundo, e de quando você me apertava no escuro e falava, baixinho: “ai, coisa mais boa!”. Não é nada. Não tem motivo, nem porque e nem pra quê. É apenas uma saudadezinha. Gostosa, tranqüila, bonita, saudável. Dedinho!


