19 setembro, 2010

Vem cá amor!

Só mais essa vez. Eu sei que você consegue. Se esforça só mais um pouco. Vem, você ta conseguindo. Isso, para de pensar. Começa a sentir. Você ta sentindo? Você consegue, eu sei que consegue. Olha pra mim. Eu to aqui por você. Eu vou sempre estar aqui pra você. Falta pouco. Mais um pouco e você consegue me amar. Ta perto, ta quase, ta chegando. Você vai esquecer, eu te prometo. E ele fica me dizendo que se eu tentar só mais um pouco eu logo vou estar amando, e gostando, e querendo, e sentindo saudade. E nada. Eu nunca amo, nunca gosto, nunca quero, nunca sinto saudade. Ele espera as dez pessoas saírem do elevador com seus braços grandes e esticados impedindo que a porta se feche. Ele no alto, bem no alto do seu 1,90 de altura sendo tão educado, bem mais do que eu sou ou do que já quis ser. A educação dele me afronta, me irrita. Aonde no século 21 alguém fica segurando a porta do elevador pra dez estranhos passarem? Ele serve minha avó, enche o tanque de gasolina do carro do meu irmão porque pegou emprestado e quando foi devolver, devolveu assim, com o tanque cheio, em pleno século 21. Ele usa all star, ouve musica boa, adora cachorro e tem um abraço esmagador, cheira bem, tem o cabelo liso e um olhar meio triste. Mas ele é tão feliz, tão feliz que parece um retardado em pleno século 21. quem é feliz assim no meio de tanta desgraça. A dilma quase ganhando, bolsa miséria, salário literalmente mínimo, contas e mais contas, gente que a gente ama morando longe. E ele lá, feliz porque ele ta comigo e vem cheio de felicidade me dar beijinhos seguidos de te amo e gosto muito de você. Oi? Te amo. Nem me conhece. Nem sabe que eu to aqui agora falando dele, coitado. Mas volto e lembro: se esforça só mais um pouco. Vem, você ta conseguindo. Isso, para de pensar. E eu me acalmo, e eu relaxo, e eu esqueço. Só por umas horas eu esqueço de que não te amo e que nem gosto muito de você na verdade. Mas eu preciso, eu me obrigo, eu sou a senhora de mim, e eu me ordeno. Chega de amores velhos, impossíveis, surrados, gastos pelas impossibilidades. Ele é possível, ele me ama, ele é educado, ele conheceu a minha avó, meu irmão, me apresentou pra toda a sua família, ele pode ser um amor bonito, eu posso escrever coisas legais sobre ele. Eu posso sentir um pouco de amor na minha barriga, nas minhas pernas. Eu quase consigo, eu quase gosto, eu quase sinto saudade, eu quase amo. Mas é esse quase que me mata. Quem quase ganhou não perdeu? Quem quase morreu não ta vivo? Ah, então pra que eu preciso amar se tem tantas outras coisas pra eu fazer? Comer sushi, um kinder, tomar um sorvete, beijar na chuva, tomar sol, correr na praia, ver o mar. Pra que essa obrigação de amar? Pra que essa pressão com o amor?
Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | ewa network review