"Alguém
estava descendo as escadas correndo, me concentrei por alguns segundos para ter
certeza de quem se tratava. “É ele!” Todas as minhas células entraram em
colapso e o meu coração em descompasso. Ignorei todas as promessas que tinha
feito a mim mesma havia alguns meses atrás.
Era o
minuto da verdade: Se eu sorrisse e ele retribuísse era sinal de que tudo
continuava da mesma forma, de que a minha indiferença não o deixou magoado
demais. Me arrisquei. Continuei andando em direção a ele, acionei o meu sorriso
mais sincero e talvez o mais bobo. O meu sorriso foi crescendo e o dele
desabrochando. Ele não desviou, nem o corpo, nem os olhos.
Depois
de meses, ali estava o abraço que eu já tinha me convencido de haver perdido, e
me arrependido de uma vez ter provado. Nenhuma mágoa, ou simplesmente mentiras
bem disfarçadas.
Não
deixou de ser mágico, mas foi mágico de outro jeito. A distância esfriou a
conversa, mas não o toque.
Ele me
envolveu, fechei os olhos. Li em algum lugar que você só fecha os olhos para
abraçar alguém que você goste muito. Deve ter durado segundos, mas foram os
segundos mais quentinhos e confortáveis dos últimos estressantes meses. Não
devia ser normal gostar tanto assim de abraçar alguém.
Meu
coração se conteve, não tremi. Foi o abraço mais calmo e talvez o melhor que já
nos demos. E exatamente por isso o mais estranho. Era hora de solta-lo e
encarar a conversa, que provavelmente não seria tão confortável quanto o
abraço.
Na minha
mente as frases “que saudade” e “sinto sua falta” giravam, pra que eu
selecionasse a que menos entregasse a minha fraqueza.
Soltei-o,
“saudade”, disse com uma voz fraca. Reparei em seus defeitos. Não me parecia
mais tão bonito. Não devia ser assim pra quem está apaixonado.
Ele
disse um montão de outras coisas que no fim significaram o mesmo sentimento,
quer dizer, espero que tenham significado mesmo isso.
Trocamos
meia dúzia de frases desconfortáveis, desconexas. Palavras que tentavam quebrar
o gelo de meses, de erros, de ausência.
Nos
despedimos. Virei as costas. O gelo não se partiu, mas talvez a dor maior não
seja por isso, talvez a dor maior seja saber que bastariam mais dez minutos
para derreter toda a Antártida que construímos entre nós em tanto tempo. A dor
maior é saber o poder que aqueles braços têm quando estão em volta de mim.
E ele
vai aparecer de novo, eu sei que vai. E toda vez que ele me abraçar
(independente do quanto eu esteja decepcionada e “desapaixonada”) vai levar meu
bom senso embora".


