29 junho, 2010

Na fila

-Oi... você...

-Oi figura. Beleza?! Você vem sempre aqui?

-Não não , essa é a minha primeira vez.

-Jura?

-Juro! Por que, eu deveria ter vindo aqui antes?

-Você não pode tá falando sério, essa é a sua primeira vez aqui?

-Já disse que sim. É tão bom assim, como todo mundo diz que é?

-Não, na verdade não é não. É melhor!

-Porra, como é que eu não vim antes então?

-Sei lá, tem maluco pra tudo!

-Gostei de ti. Teu olho é meio triste. Tu é um pouco triste?

-Você é bem louca né?

-É.

-Chegou a minha vez. Você vem em seguida?

-Todo mundo diz que é bom mesmo?

-Já disse que sim!

-Então não vou não.

-Você é louca?

-Já disse que sim!

-Mas eu não entendo. E se todo mundo dissesse que era ruim?

-Aí, eu já teria ido mil vezes.

23 junho, 2010

Sacanagem pura

“O teu amor é uma mentira, que a minha vaidade quer”. É como se eu acreditasse nisso sempre. Tem sempre amores indo e vindo. Gente que chega de surpresa na vida e me rouba de mim por uns segundos. Me suspende no ar. Me faz querer acreditar, só mais essa vez, só esse pouquinho, só desse tanto que me deixa louca ainda que inteiramente racional. E eu acredito, eu sempre acredito. Eu e essa minha mania de ingenuidade que sempre me corta, que me rasga, me despedaça. Ainda que ser ingênua me pareça daqui dessa cadeira ser tola demais, eu não consigo mudar. Não posso simplesmente começar a duvidar do mundo. Ser esperta o bastante pra sentir de longe o cheiro da malandragem chegando. Olha lá quem ta vindo... A sacanagem outra vez. E ela como toda sacanagem que eu canso de dizer, é boa, porque é explicita. Sacanagem velada, escondida, que graça teria? Pode zoar, isso aí, é assim que você quer? É isso mesmo? Então ta meu bem, só essa vez, só mais essa vez. Mas veja bem, não abuse. Eu até libero, te dou passe verde, pode ir e vir quantas vezes você quiser já que os erros soltos e expostos sempre me perseguiram mesmo, eles e toda essa minha incoerência latente que salta aos olhos e pode ser sentida na pele, mas que soa como uma perfeição ainda que não entendida e me faz sentir essa retardada felicidade fazendo com eu a sinta nos lugares mais improváveis, até meu suvaco pode ficar feliz, minha unha que quebra e forma um sorriso ambulante no meu dedo. E me arrepia, e me faz querer deixar o cabelo cair pro lado pra sentir o queixo na nuca. Sacanagem pura. Nada que eu não tenha sentido antes, ou escrito, mas mais uma vez, o que pontua minha vida em momentos e me joga para a frente pra cair de cara. Sei, como sempre soube que tudo que sobe tem que cair, e tudo o que é bom um dia acaba, e que eu posso me estabacar em pedaços mais uma vez. E sei como me conheço tão bem, que vou me levantar mais e uma vez, prometendo não acreditar tanto, prometendo ter sido a ultima vez que a minha pobre e doce ingenuidade agiu sem meu controle. E logo, quando estiver inteira, eu sei que a merda volta toda outra vez. E você nesse ritmo tranqüilo de quem não tem pressa foi convidado pela minha ansiedade a colocar os pés em cima do meu coração limpo. O que significa que o meu teclado agradeceu por ter voltado a sentir meus dedos em cima de suas teclas tentando traduzir em palavras aquilo que nem eu sei ao certo o que se passa dentro de mim. Queria na verdade agradecer pelo sorriso natural, pelo silêncio nada constrangedor, pelo zelo em querer resolver problemas meus. Obrigada pela sua vontade de errar, sem ela minha vida não poderia parecer certa. Obrigada pela sacanagem pura, ainda que eu não saiba bem o que isso quer dizer na verdade.

21 junho, 2010

Na hora certa

Fiz listas intermináveis. Fantasiei a realidade e quase acreditei nela. Não dei chance pra quem merecia. Falei o que não devia e me calei quando devia ter falado. Fui chata, megera. Coloquei pressão. Fui radical. Não deixei ninguém entrar na minha vida. Não liberava meu coração. Ele era seu. Só seu. Ainda que despedaçado. Ninguém o levaria de você. Eu não permitiria que roubassem ele de você. Eu te entreguei a minha fidelidade. Toda aquela coisa complicada e sublime do amor na minha cabeça que entrava devastando como um bicho mal educado, invadindo e se apoderando de mim, pondo em cima do meu coração limpo seus pés imundos calçados com suas botas sujas de tanto andar por ai. Todos os "porquês" mal respondidos, todas as mágoas ainda latentes, tanta saudade, tanta tristeza, tanta falta. O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acabou. Me rasgou por dentro, fez um corte profundo, o amor se encerrou bruscamente, e transformou todo céu azul em cinza, e fez o sol parecer uma afronta. Me fez querer xingar o mundo por ele continuar seguindo seu ritmo.Me fez tirar de ouvido as notas tristes de uma música e depois cantarolar em sinfonias em choros acústicos. Minha cabeça pede tristeza, minha alma pede silêncio. Meu coração quer bater sem vontade, descompaçado pela força da tristeza. Eu querendo chorar a última piada, eu querendo doer à última certeza, eu querendo passar as noites em claro. Eu querendo ver a fratura exposta. Querendo definhar em praça pública, querendo rasgar a alma em pedacinhos pra dizer que acabou. Eu lembrei e não doeu. E eu coloquei musica triste pra doer. Vi as fotos, li as cartas. Não doía nada. Nem uma pitada. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde a magia, músicas idiotas deixam de ter todo o sentido do mundo. Passou a dor do amor, veio à trégua, o coração limpo, os olhos secos, e a alma vazia. A vida ficou tranqüila demais. O meu desejo morreu. E eu renasci limpa e pura, sem uma gota de amor.

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