Pra não pensar em nada, pra ficar mais calma, respirar fundo e sentir o ar entrar nos meus pulmões. É isso, é fácil, é só respirar, tá vendo? Calma isso passa, logo melhora, daqui a pouco você vai estar gostando muito, eu prometo. Mas e se não passar? E se não melhorar? É que comigo, as coisas nunca passam, entende? Acho que não vou conseguir. Aumenta a música então. Tudo tão engraçado e tão perturbador ao mesmo tempo, nunca às emoções foram tão sensíveis e perceptíveis. Era eu, nua de toda capa, couraça, vontades reprimidas, dogmas, paradigmas, era eu, apenas eu. E o mundo sempre tão amado, tão desejado, tão isso e aquilo perdeu todo o brilho. Daqui a pouco começa tudo de novo, os carros, as buzinas, a correria indicando que nada mudou. Tudo continua igual! Mas não precisa pensar nisso. Volta pra cá. Isso é só o começo. Chega de me entupir das coisas que me incomodam. É a minha primeira vez, eu não vou deixar que o mundo venha e me roube isso. Chega de correr e correr em busca dessas respostas que sempre chegam vazias de entendimento. To cansada de tanto pensar, de tanto sentir. Quero me esvaziar, ter um orgasmo de liberdade. Isso existe? Não sei, mas eu quero isso, você é capaz de me dar isso? Meu quadrado de ar e silêncio fica cada vez maior. Eu respiro e sinto toda a dor aos poucos indo embora. Eu e o meu sorriso. Eu e as minhas lágrimas. Tudo ao mesmo tempo em uníssono. Ontém não existiu. Fora do meu quadrado não existe mais nada. Não existe a pancada, a dor, a guerra, a pobreza, o sofrimento. Eu não vou sair nunca mais daqui, quero acordar e ficar aqui, onde a pressão não cai, onde a preocupação não existe, onde as pessoas não inventam gostar ou não de mim. Aqui não tem hipocrisia, a gente é o que é, e fala o que pensa, e sente de verdade, e corre até cansar, e coloca a língua pra fora que nem cachorro exausto sedento por água. Aqui não tem gente que me olha como coruja do alto de suas observações e analisa o meu comportamento, a maneira como eu sorrio, como eu falo, como coloco os cotovelos na mesa, como se já tivessem me comido numa festa e tivessem esse segredo em suas mãos. Mania de estar me justificando, mania besta de querer ser boa demais, ter os melhores conselhos, as melhores respostas. Mania de me importar com o que vão pensar, julgar ou falar. O mundo não mudou não é mesmo? Se tudo continua igual, por que eu vou me preocupar? Espera que passa, você ta esquecendo de respirar. Não é tão difícil. Falsos anjos moralistas cagados de hipocrisia desfilando suas boas intenções pela terra. Eu me conheço tão bem que prefiro ser contada por mim, que uso a verdade ainda que doída e incompreendida. Mãe, me ajuda aqui, só dessa vez, eu sei que já faz tempo que eu corria pra pedir a tua ajuda, mas agora é sério. Eu não consigo respirar, ta cada vez mais abafado, meu peito dói mais. Gente, tô falando sério, minha cabeça vai explodir. Eiiiii, é sério, eu não consigo mais respirar. Qual é o próximo passo? Você disse que logo eu estaria gostando. Falta pouco, eu sinto isso. Essas sensações terríveis que não passam, das coisas que não sei, que não se encaixam, que eu não entendo, que giram dentro do meu estômago enjoado que se recusa a digerir isso tudo, que não é tudo, que é quase nada, e que quase passa, mas sempre fica. Se eu respirar passa, se eu escrever passa. Então eu vou respirar... isso, eu tô respirando, eu tô sorrindo, ta passando, ta melhorando, ta quase acabando, talvez por isso eu não vá acordar nunca mais. Nunca mais. Os falsos anjos ainda me olham analisando, mas eu já escrevo. E você meu bem, lê isso e me entrega pela primeira vez a chave da minha liberdade.
15 agosto, 2010
Primeira vez
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