31 agosto, 2010

Relatório mensal

Por puro capricho e uma pontada de inveja César Augusto (imperador) resolveu por decreto que esse mês teria trinta e um dias e que se chamaria Agosto. Foi assim que eu comecei a reunião mais importante do mês com o meu novo chefe. Desde que ele assumiu o controle da empresa todo mundo voltou a andar na linha. Chegando sempre no horário. Cumprindo as metas, alias, muitas vezes, superando as metas. O cafezinho era mesmo só quinze minutinhos e olhe lá, muitos até faziam hora extra. O antigo chefe, sempre complacente demais, sentava à mesa conosco e tomava seu chazinho contando histórias lindas, engraçadas, tristes, mas sempre emocionantes. Todos, sem exceção o idolatravam. Mas o tal novo chefe andava sério e sisudo, sem um sorriso nos lábios, até pra cumprimentar. Seu andar sempre firme, seus gestos sempre bem articulados, suas respostas prontas pra qualquer pergunta. Todos esperavam aflitos a hora que seriam chamados e teriam seus serviços dispensados. O burburinho na empresa era inevitável. Com olhares e testas franzidas todos se comunicavam. Ele me liga e diz: “o relatório mensal deverá ser apresentado por você”. Pera aí, por que eu? Como assim? Eu nunca fiz isso! E agora? E se eu ficar nervosa demais e começar a sorrir e fazer graça? Meu antigo chefe entenderia e sorriria comigo, mas você não! E quem você pensa que é afinal? “sim senhor, é pra já, inclusive, já o tenho em mãos”. Eu posso ser estranha, mas passo longe de ser incompetente! E lá no meu blá blá blá dizendo que César Augusto fez Agosto virar Agosto por inveja de Júlio Cézar que batizou Julho em sua homenagem e fez o mês ter trinta e um dias. Ele me olha sério e avisa “quando você quiser”. Pô, eu já tinha começado. Mas se era assim, partiria logo pro que realmente interessava. Olha, nesse mês de agosto as receitas superaram todas as expectativas. Alianças de paz foram firmadas. Antigos fantasmas enterrados (fizemos missas de sétimo dia pra cada um). Subimos dois números na bunda de valores. A unha foi enfim restabelecida. Novas parcerias foram feitas. Muitos eventos comemorativos. Inúmeros convites. Propostas de namoro. Novas aulas e um vasto aprendizado. Projeto de conclusão do curso aprovado. Suspeita de repetência em pesquisa cancelada – aprovada na média, entretanto, aprovada. Volta à escrita. Reencontros com amigos. Já as despesas. Apesar dos dois pontos na bunda de valores, nós tivemos um crescimento de cinco pontos percentuais no índice de gordura. Um vírus aparentemente nocivo, para se reproduzir, o Diocteriófago fixou-se na superfície do cérebro com mensagens sublimares hospedou-se através do coração, perfurando toda a razão celular e injetando todo o material em expectativas frustradas. Tentamos por diversas vezes um tratamento paliativo, visando reduzir os sintomas sem alterar a doença. Mas infelizmente nada pôde ser feito. A saída do Sr. Ricardo (motorista da van) e um assassinato na rua da minha casa me deixaram extremamente abalada. Algumas dívidas foram contraídas pela falta de contrato firmado, mas o freela voltou a funcionar. Portanto o balanço do mês de Agosto é positivo. Temos bastante paz e tranqüilidade. Foi um mês bastante racional, apesar dessa ultima parte citada. Ele me olhou sério, e eu fiquei esperando uma bronca: “cinco pontos percentuais de gordura? Como você deixa isso acontecer? Vírus? Por que diabos você ainda não conseguiu esse contrato”? Nada. Ele não dizia nada! “tipo, oi? Eu acabei”... Ele sorriu: “Até quem fim você aprendeu. Vou te dar um aumento e uma promoção”! Oi? Aumento? Promoção? É que desde que tu assumiu essa empresa as coisas voltaram a funcionar direito. Mas enfim, acho mesmo que mereço! O coração, antigo chefe e hoje rebaixado de cargo, me olhava impotente e passivo, triste e arrasado. Eu via aquilo, mas me calava, já que no passado por pouco ele quase nos leva a falência. Na hora de sair da reunião eu segurei na mão dele e disse baixinho: “Ei bobo, é sempre assim, quando a empresa vai mal, eles sempre contratam uma consultoriazinha de merda, mas é só as coisas ficarem boas que a velha chefia volta a comandar. Essa empresa é sua. Ela só tem graça com você no comando. É que às vezes, só às vezes, você é meio burrinho, mas eu prefiro mil vezes ter você como senhor e dono da minha empresa”!

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