06 agosto, 2010

O mundo e todo mundo

Eu sempre achei que sentisse tudo à flor da pele. Eu sempre acreditei que eu fosse intensa, e que vivesse tudo ao máximo e muito e correndo e querendo aproveitar cada segundo de tudo, antes que esse tudo virasse nada. E eu pessimista demais sempre acreditei que o tudo não dura muito, mas eu nunca me incomodei porque sempre soube que eu abuso de tudo fácil e rápido, e logo acho que tudo é babaca demais e que nem queria tudo mesmo. Eu sempre sentindo, ou pelo menos achando que sentisse tudo com uma particularidade tão grande que me deixava pertencer a um topo de uma árvore qualquer, que seria cobiçado demais, por ser difícil demais. Até meu nervosismo é diferente, já que nervosa eu tenho ataques de riso e começo a gesticular muito e a sorrir como uma criança que não sabe se expressar, mas que os olhos falam e exprimem bem aquilo que ela não pode falar. O meu choro não poderia ficar pra trás, se chorar faz parte, eu decidi então nunca chorar. Se o choro não resolve nada, não tapa buraco, não preenche vazio, não aquece, não faz nada. Não vou chorar! Eu sempre soube, ou sempre acreditei, que este meu jeito tão “único” e tão “especial” fazia com que eu alimentasse um bicho tão terrível, tão perigoso, tão temido que o próprio Renato Russo disse uma vez com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Até quem me disse ser ímpar virou par, e eu que era tão par, virei tão ímpar que já não sei desvirar. O que agora me parece ser um erro terrível, não passa apenas de um medo do mundo e de todo mundo. O mundo e todo mundo é dança, é riso, é música, é tudo, mas escuta o meu medo de cair de novo, escuta o meu medo falando baixinho que tem pavor de chorar, que treme só em pensar no coração doer, no pânico que dá em ter que enterrar a borboletinha azul que é atrevida e que voa por toda a corrente sanguínea, e adora dar saltos e mortais no meu estômago. Isso é medo de viver? Tá, eu tenho um puta medo de viver, e como consequência eu vivo o mal da solidão. Misto de nervosismo, arrogância, ritual de sobrevivência ou servidão. Por mais que eu seja esperta, eu não passo de uma menina tola, que se acha no topo de qualquer coisa. Eu não quero mais dizer e nem sentir coisas feias que saem sem filtro de dentro e que explodem na cabeça do mundo e de todo mundo que sempre diz e sente coisas lindas que chegam filtradas, e que caem como pluma no peito de todos. Eu entendo que deixei de querer amar o mundo e todo mundo, porque cansei de amar muito e amar demais. Eu sei que é normal querer chorar, quando se tem tanta vontade de ser feliz. Eu precisava do mundo e de todo mundo pra ver o "lindo" que todo mundo enxergava e que acolhia tão bem. Mas ouve, acredita que eu sonhei que casava com você e que tínhamos filhos? E a gente deixava de ser “eu” e passávamos a ser “nós”? Eu não sei o que sinto de verdade, mas digo mesmo assim, que é pra ver se eu consigo descobrir. Eu tenho certeza que este texto saiu, porque você disse que ele sairia, e que minha preguiça de escrever passaria. Eu tenho certeza que você não sabe que eu pensei tanto em você que procurava seu nome nos muros pichados, nos cantos abandonados, nas esquinas que viram e que se abrem pro mundo. Porque eu tenho certeza de que você não é o mundo e nem todo mundo e, justamente por isso, eu queria muito gostar tanto de você, mesmo sabendo ser impossível, mas se a gente consegue segurar na mão da criança que existe dentro da gente, nós conseguimos o impossível, porque ela ainda não conhece essa palavra.

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