27 outubro, 2013

Antártida

"Alguém estava descendo as escadas correndo, me concentrei por alguns segundos para ter certeza de quem se tratava. “É ele!” Todas as minhas células entraram em colapso e o meu coração em descompasso. Ignorei todas as promessas que tinha feito a mim mesma havia alguns meses atrás.
Era o minuto da verdade: Se eu sorrisse e ele retribuísse era sinal de que tudo continuava da mesma forma, de que a minha indiferença não o deixou magoado demais. Me arrisquei. Continuei andando em direção a ele, acionei o meu sorriso mais sincero e talvez o mais bobo. O meu sorriso foi crescendo e o dele desabrochando. Ele não desviou, nem o corpo, nem os olhos.
Depois de meses, ali estava o abraço que eu já tinha me convencido de haver perdido, e me arrependido de uma vez ter provado. Nenhuma mágoa, ou simplesmente mentiras bem disfarçadas.
Não deixou de ser mágico, mas foi mágico de outro jeito. A distância esfriou a conversa, mas não o toque.
Ele me envolveu, fechei os olhos. Li em algum lugar que você só fecha os olhos para abraçar alguém que você goste muito. Deve ter durado segundos, mas foram os segundos mais quentinhos e confortáveis dos últimos estressantes meses. Não devia ser normal gostar tanto assim de abraçar alguém.
Meu coração se conteve, não tremi. Foi o abraço mais calmo e talvez o melhor que já nos demos. E exatamente por isso o mais estranho. Era hora de solta-lo e encarar a conversa, que provavelmente não seria tão confortável quanto o abraço.
Na minha mente as frases “que saudade” e “sinto sua falta” giravam, pra que eu selecionasse a que menos entregasse a minha fraqueza.
Soltei-o, “saudade”, disse com uma voz fraca. Reparei em seus defeitos. Não me parecia mais tão bonito. Não devia ser assim pra quem está apaixonado.
Ele disse um montão de outras coisas que no fim significaram o mesmo sentimento, quer dizer, espero que tenham significado mesmo isso.
Trocamos meia dúzia de frases desconfortáveis, desconexas. Palavras que tentavam quebrar o gelo de meses, de erros, de ausência.
Nos despedimos. Virei as costas. O gelo não se partiu, mas talvez a dor maior não seja por isso, talvez a dor maior seja saber que bastariam mais dez minutos para derreter toda a Antártida que construímos entre nós em tanto tempo. A dor maior é saber o poder que aqueles braços têm quando estão em volta de mim.
E ele vai aparecer de novo, eu sei que vai. E toda vez que ele me abraçar (independente do quanto eu esteja decepcionada e “desapaixonada”) vai levar meu bom senso embora".



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