Eu não faço a menor idéia de como você vai entender. Na verdade eu não tenho a menor idéia do que eu quero dizer. Eu sei que você não vai saber correr pro lugar sagrado do meu peito. Eu sei que não vai dar certo, que não adianta que nós não teremos um lugar ao sol ou um lugar num lençol branco e puro e sonhar com tudo o que é bom da vida. Nós não seremos amigos. Nós não nos abraçaremos como amores reais. Mas numa bela manhã me vi pensando em você e pensando que talvez, mesmo que não haja a menor possibilidade porque a gente tinha deixado de sentir e fazia tempo, não me custava escrever que o seu abraço era esmagador. Uma amiga minha deu a dica: “fala isso e aquilo, eu vou lá com você. Se tu quiser, fico te esperando”. E foi o que tentei fazer. Peguei pão, coloquei manteiga, fiz meu toddy, me vesti, fui trabalhar, escrevi emails, assinei contratos, fiz reuniões, até chegar a hora que não dava mais pra adiar. É agora ou nunca. Oi? Como assim? Ligo pra minha amiga: “digo rasgado mesmo ou faço um texto floriado?” e ela séria, no meio de uma reunião “você até agora não mandou? Diz logo, diz de uma vez, floriado ou direto, mas diz...”. Agora era uma questão de honra. Começo lembrando de cada coisa mais ridícula que a outra e lembro que isso é normal, porque eu sou ridícula e as minhas historias não poderiam ser diferentes. Digito meio sem coragem... “você era...” será que ele deixou de ser? Me aproximo de uma crise existencial. Apago as duas palavras e volto a pensar. Falo com a minha amiga da sala ao lado: “Flávia, que que eu faço”? Ela fecha a cara e diz que eu preciso me virar sozinha. Antes de me arrastar até a forca e voltar a digitar cada palavra por alguma razão da desgraça humana eu vejo o ar de dó da minha amiga parada, imóvel tentando entender o porquê eu tava fazendo aquilo tudo. Qual é? Não posso sentir nada, não? Tá com raiva porque eu decidi que quero me despedir bacana dessa historia de mais de uma década? Sua religião não permite? Qual é a sua? Virou minha mãe agora? Você devia era estar feliz que eu finalmente vou me libertar dessa historia toda. Qual é seu problema? Mas como nada disso tem muito cabimento, desencano de entender e percebo que a minha amiga não está parada imóvel me analisando, ela só está esperando a impressora terminar de imprimir os relatórios que ela tinha pedido. Eu é que estou inventando história complicada pra algo tão simples quanto: mandar um tchau pra uma pessoa bacana, que me amou e que eu amei e que a historia acabou tem uns seis anos luz. Veja bem: Aonde isso é simples? Ronan o psicólogo disse que eu tenho uma necessidade enorme de encerrar os ciclos da minha vida com abraços pra me sentir liberta. O fim de qualquer coisa já me deixa meio mal, e se não for bem finalizado me deixa muitooo mal. Eu escrevo: “Eu não resisti”. E aí começou o festival de nostalgia e atos falhos. Paro alguns segundos pra resolver o que me parecem ser a únicas perguntas que realmente importam na vida de uma mulher: digo tudo ou digo só a metade? Me mostro exagerada e meio louca, ou me mostro comedida e meio santa? Sou super madura ou não passo de uma criança? Me lembro que ele me conhece muito mais do que eu mesma. Ok. Vou ser super sincera e dizer o que eu tô sentindo. A minha vida sempre funcionou assim mesmo. “galera, segura aí que eu vou dizer pra ele que senti saudade mesmo não amando e mesmo ele tendo me amado muito eu nunca soube explicar o porque a gente não deu certo” Acabou. Agora acabou. Seria, enfim, o fim do alarme barulhento e muito vermelho que não parava de disparar no meio da minha cabeça me avisando que eu tinha que dizer que eu o liberava, e que sim, eu queria que ele fosse muito feliz. Olhem! T
odos! Eu tenho um coração gigante e sou muito bacana, mesmo que às vezes eu me sacanei bastante. Num ato de desespero e exaustão, decido acabar logo com isso. É, minha gente, eu escrevi um texto bacana. Aperto enviar e o email vai embora. Ufa! Eu enviei. Eu me libertei. Eu estou em casa. Para meu desespero vejo uma frase bem bacana de um rapaz no face que me da vontade de escrever. E me preocupo. E agora o que será que ele vai pensar? Eu não sei, mas Freud certamente saberia explicar.
20 outubro, 2010
Freud explica
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