Eu decidi enterrar de uma vez por todas. Disse pra mim: - Chega, ja deu! Parei de comentar, de tornar pública cada lembrança. Morreu, acabou! E assim, com uma determinação que me é peculiar eu me fiz de forte. Eu pressentia que alguma coisa não estava em ordem. Quase nove meses de agonia e sozinha mesmo, precisava ninar esse enjôo de um filho sem pai, esperar que ele nascesse morto e enterrá-lo já sem dor. 'A gravidez do coração dura mais do que deveria e só expulsa seus filhos quando esses já nem existem mais'. E durante esse tempo eu resolvi dizer que tô bem, enfim eu posso seguir em frente sem apertar o meu coração em busca de uma voz que me dizia que a felicidade tinha meu nome e meu endereço. Antes, eu não conseguia mais ver graça nas coisas. Tudo perdera o brilho, a mágica, o encanto. E agora, eu só penso 'quando vou fazer isso de novo'? agora, dei pra rir atoa, voltei com as velhas brincadeiras que sozinha sempre embalaram meu coração. Pequenos hábitos que foram esquecidos. É, acho que tô bem. Agora, dei pra achar: Poutz, a vida é muito boa. E a tal felicidade que me disseram ter meu nome e meu endereço. Veja só, eu concordo. Ela mora dentro de mim, e o nome dela é amor próprio. É, acho que tô bem. Quando eu me atraso, me perco, falta tempo, agoniada, atarefada, eu paro e acho tão bom... E eu penso que se não fosse tudo isso eu não estaria aqui, e me pegar pensando aonde eu estaria é querer perder meu tempo. Penso apenas “hmmm, olha só, se o trânsito não tivesse parado, se eu não tivesse me perdido, se eu não tivesse agoniada, atarefada eu não teria visto, sentido, ouvido... E eu vi, eu senti e ouvi... E eu consegui enterrar o tal filho morto, já sem dor. Como os gregos faziam, coloquei as moedas nos olhos e pedi pro barqueiro atravessa-lo e leva-lo pra bem longe de mim, pra que a tal felicidade pudesse ter um outro nome e um outro endereço. Ontem foi a missa de sétimo dia e como uma mãe forte que sabe que terá outros filhos pra embalar eu sorri e disse: Vai ser feliz! Agora, estranhamente me sinto cada vez mais forte. Lendo o ultimo capitulo do Dan Brown - A conspiração. Eu me via no papel da Rachel a mocinha que caira no mar em um submarino cheio de infiltrações com a certeza de que iria morrer e o Michael (par romantico) mergulhava desesperado tentado salva-la. Eu era a rachel e o meu par romantico ao mesmo tempo. Porque eu mesma fui buscar em mim a maneira de não me entregar. Era eu quem batia no meu vidro e gritava: Vai dar certo! E assim como nos filmes ou livros, a mocinha sai ilesa com uma certeza: Hoje ela é mais forte do que nunca! É, eu realmente tô bem!
05 março, 2010
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