01 maio, 2013

A bailarina


Às vezes eu fico olhando os blogs/sites/instagrans/faces desse povo que parece não ter conta, nem trabalho, nem compromisso, nem TPM, nem espinha, nem cravo, nem poros abertos, que não se deprime... E eu vou ficando tão impressionada com tudo. É tanta roupa, é tanta jóia, tanto sapato, tanto salão, tanta dieta, tanto corpo sarado, gente magra que come de tudo e que parece nunca engordar.  Como diria a música do Chico Buarque “Procurando bem todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina... Só a bailarina que não tem.” Traduzindo pros tempos modernos, seria a bailarina pela blogueira de moda que vende uma vida perfeita pra nós pobres mortais. Tudo ali é lindo, loiro, a família é unida e sem problemas. Durante o dia, entre um relatório e outro, entre uma ligação e um pedido do chefe eu fico fazendo um monte de planos. Corto meus doces e carboidratos, aprendo a lavar meu cabelo (porque não pode esfregar os fios hahahaha), planejo ir pra academia, me imagino magra, penso em usar o cartão de crédito e fazer umas compritchas básicas. Mas quando o dia acaba eu to tão cansada, tão exausta que o pão com manteiga na mesa com um golinho de café parece um manjar dos deuses, o sofá parece uma cama de rainha e a minha cama parece um algodão doce de tão macia. Eu parei pra analisar as minhas coisas e lá também tava cheia de melhores momentos! A minha vida até parece glamorosa, né? Seria eu a blogueira casual, comentarista do mundo em uma versão revoltada? E eu, depois de uma semana inteirinha de luto interno, mesmo tendo saído com as amigas, ido a shows e me divertido, não tirei uma única foto. Pensei: “Pra quê”, O que as pessoas vão pensar? Que a minha vida é maravilhosa enquanto elas e eu estamos fodidas?”. Elas não saberiam que na mesma noite eu quis chorar de saudade, que estourou um ponto da minha cirurgia, e que no dia seguinte acordei com o peito apertado. Vender perfeição é fácil. E qualquer um de nós pode fazer isso se quiser. Para que eu me juntaria a essa multidão que vende festas, roupas bacanas e sorrisos? É só lembrar do Renato Russo dizendo: “Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.” As pessoas querem no fundo enganar elas mesmas... tem uma frase bacana do Barão de Montesquieu: “ Se quiséssemos ser apenas felizes, isso não seria difícil. Mas como queremos ficar mais felizes do que os outros, é difícil, porque achamos os outros mais felizes do que realmente são”. Isso vale pra mim, pra minha vida, pra minha realidade. Vamos ser felizes com que a gente tem, pode parecer pouco, mas no fundo a gente sabe que não é! Mais um dia vai começar. Eu vou estar lá de novo nos blogs/sites/instagrans/faces desse povo que não vive nessa terra. “Medo de subir, gente, medo de cair, gente, medo de vertigem quem não tem?” Todo mundo tem, e fica a dica: se você vir uma foto e achar que a minha vida é maravilhosa, não, ela não é. Eu estou rindo, mas talvez esteja meio nervosa. Não sou a bailarina do Chico Buarque e nem a blogueira da moda, sou só eu, humana. Fazer o quê?

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