Às vezes eu fico olhando os
blogs/sites/instagrans/faces desse povo que parece não ter conta, nem trabalho,
nem compromisso, nem TPM, nem espinha, nem cravo, nem poros abertos, que não se
deprime... E eu vou ficando tão impressionada com tudo. É tanta roupa, é tanta jóia,
tanto sapato, tanto salão, tanta dieta, tanto corpo sarado, gente magra que
come de tudo e que parece nunca engordar.
Como diria a música do Chico Buarque “Procurando bem todo mundo tem
pereba, marca de bexiga ou vacina... Só a bailarina que não tem.” Traduzindo
pros tempos modernos, seria a bailarina pela blogueira de moda que vende uma
vida perfeita pra nós pobres mortais. Tudo ali é lindo, loiro, a família é
unida e sem problemas. Durante o dia, entre um relatório e outro, entre uma
ligação e um pedido do chefe eu fico fazendo um monte de planos. Corto meus
doces e carboidratos, aprendo a lavar meu cabelo (porque não pode esfregar os
fios hahahaha), planejo ir pra academia, me imagino magra, penso em usar o
cartão de crédito e fazer umas compritchas básicas. Mas quando o dia acaba eu
to tão cansada, tão exausta que o pão com manteiga na mesa com um golinho de
café parece um manjar dos deuses, o sofá parece uma cama de rainha e a minha
cama parece um algodão doce de tão macia. Eu parei pra analisar as minhas
coisas e lá também tava cheia de melhores momentos! A minha vida até parece
glamorosa, né? Seria eu a blogueira casual, comentarista do mundo em uma versão
revoltada? E eu, depois de uma semana inteirinha de luto interno, mesmo tendo saído
com as amigas, ido a shows e me divertido, não tirei uma única foto. Pensei:
“Pra quê”, O que as pessoas vão pensar? Que a minha vida é maravilhosa enquanto
elas e eu estamos fodidas?”. Elas não saberiam que na mesma noite eu quis
chorar de saudade, que estourou um ponto da minha cirurgia, e que no dia
seguinte acordei com o peito apertado. Vender perfeição é fácil. E qualquer um
de nós pode fazer isso se quiser. Para que eu me juntaria a essa multidão que
vende festas, roupas bacanas e sorrisos? É só lembrar do Renato Russo dizendo: “Mentir
pra si mesmo é sempre a pior mentira.” As pessoas querem no fundo enganar elas
mesmas... tem uma frase bacana do Barão de Montesquieu: “ Se quiséssemos ser
apenas felizes, isso não seria difícil. Mas como queremos ficar mais felizes do
que os outros, é difícil, porque achamos os outros mais felizes do que
realmente são”. Isso vale pra mim, pra minha vida, pra minha realidade. Vamos
ser felizes com que a gente tem, pode parecer pouco, mas no fundo a gente sabe
que não é! Mais um dia vai começar. Eu vou estar lá de novo nos
blogs/sites/instagrans/faces desse povo que não vive nessa terra. “Medo de
subir, gente, medo de cair, gente, medo de vertigem quem não tem?” Todo mundo
tem, e fica a dica: se você vir uma foto e achar que a minha vida é
maravilhosa, não, ela não é. Eu estou rindo, mas talvez esteja meio nervosa. Não
sou a bailarina do Chico Buarque e nem a blogueira da moda, sou só eu, humana.
Fazer o quê?
01 maio, 2013
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